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CLUBE UNIÃO MICAELENSE
A SEDE
Pouco mais de 2 anos decorridos,
eclodia a primeira guerra mundial, de 1914-1918, que acarretaria transformações
económicas e sociais, vultosas e irreversíveis, aqui como no resto do mundo.
Foi assim que o palácio Fonte Bela, depois de ter servido parcialmente à
instalação de serviços do sector americano da base naval luso americana em
Ponta Delgada, foi posto em boca de venda. No ano de 1920, o Dr. Jeremias da
Costa, animador do Clube União Sportiva, promoveu a aquisição pela Junta
Geral, de que era presidente, e pela maioria dos municípios do então distrito
de Ponta Delgada, do belo palácio oitocentista, do seu jardim e extenso pomar.
Este último foi transformado em campo de jogos, com enorme rectângulo de
futebol, que só desapareceria em 1942, para dar lugar à actual versão,
inaugurada no ano seguinte. Quem pugnou pela radical transformação foi o
professor Augusto Moura Júnior, consagrado mestre de Educação Física, antigo
jogador da União Micaelense e que recordo com saudade. Tardes gloriosas de
futebol foram vividas, durante 20 anos, nesse campo de jogos do Liceu, com os
seus três portões, propositadamente abertos no altíssimo muro que outrora
protegera as árvores de fruto. Entretanto, também a nobre residência do Barão
de Nossa Senhora de Oliveira, Manuel Inácio Peixoto da Silveira, irmão de
Jacinto Inácio Rodrigues da Silveira, primeiro Barão da Fonte Bela, era posta
à disposição de inquilinos. Nela se instalou a União Micaelense. Presidia
Horácio Teves, dado aos desportos, como o da equitação. Chefe de família
exemplar, prestou bons serviços em várias agremiações, como a sociedade de São
Vicente de Paula e a Associação Católica de Ponta Delgada. O Tenente Henrique
Galvão veio a Ponta Delgada e, nos últimos anos 20, ali orientou classe de
educação física, em estilo moderno, com todo o dinamismo da sua
personalidade, que se distinguia também no âmbito da cinegética e da
literatura. Era um organizador nato, cujas qualidades avultaram em iniciativas
com repercussão internacional. Mais tarde, sofrendo e reagindo com o seu
temperamento indómito, ficaria célebre na contestação ao regime de
1926/1974, com o assalto ao paquete português “Santa Maria”. Viria a
falecer na grande cidade brasileira de São Paulo a “Nova York portuguesa”,
em 25 de Junho de 1970. O grande logradouro serviu à evolução das classes de
ginástica e à prática da corrida, do salto e do volley-ball. Porque a União
Micaelense era um centro de promoção cívica, naquele recinto se concentraram
regularmente as nossa escolas primárias, para a prática da educação física.
Mas a vida económica dos clubes é quase geralmente difícil, porque – como
dizia o professor José da Costa – os nossos entusiasmos são como fogo de
palha, que arde altíssimo, ao receber cada novo suprimento, mas logo desce e
quase se extingue. Foi assim que a União Micaelense, no fim da década de 20,
permutou a sede com Luís Jacinto de Carvalho, também ele entusiasta doutro
clube, que era a União Sportiva. Desta forma resultou que o Hotel Central, na
Rua Carvalho Araújo, onde hoje é o Conservatório Regional, passou para o
palacete dos Barões de Nossa Senhora de Oliveira, e deste saiu a União
Micaelense, que foi estabelecer-se no citado edifício da Rua do Colégio ou de
Carvalho Araújo. Achava-se esta nova sede prestigiada pelo facto de nela ter
residido como hóspede, em 1926-1927, o marechal Gomes da Costa, herói da Índia,
da África e da França. Entre os jogadores de futebol da União Micaelense,
contaram-se os dois irmãos Augusto e Jorge Moura, o primeiro dos quais seria,
como já foi referido, notável professor de Educação Física, e o segundo
funcionário dos Serviços de Viação e comerciante empreendedor. Outro jogador
foi João de Viveiros Bettencourt, administrador da prestigiosa revista
“INSULA”, guarda-livros da Casa Melo Abreu, Vice presidente do Município de
Ponta Delgada e membro do conselho de administração da Caixa Económica da
Misericórdia, no período da sua grande expansão. Mas não foi longa a permanência
da União Micaelense, na grande casa da Rua Carvalho Araújo. Menos de 10 anos
decorridos, dali saía, para dar lugar à Associação Católica de Ponta
Delgada. Antes de se fixar na actual sede, numa das casas da Rua dos Mercadores,
o Clube União Micaelense ocupou a casa situada no Largo da Palmeira, paróquia
de S. Pedro, residência agora do Director do Centro Regional dos Açores da RTP.
E foi aí, nessa casa pertencente ao conhecido industrial Alcindo Alves dos
Santos, que bebi as primeiras imagens do Clube União Micaelense. Estou a ver-me
criança que ainda mal balbuciava as primeira palavras, a brincar com bolinhas
de ping-pong rachadas, a percorrer com os olhos ávidos a sala dos trofeus, a
contemplar os disputados jogos de matraquilhos, a saborear as vitórias do Clube
União Micaelense. Levado pela mão de meu saudoso pai, apaixonado e
“doente” pelo Clube negro–rubro, convivi com nomes famosos na altura:
George Bradford, Eugénio Oliveira, Durval, Pinto, João Luís, Macedo, e, mais
tarde com os irmãos Vicente, Lemos e tantos outros que poderiam encher páginas
e paginas deste trabalho. Quando nasci, meu pai, em conversa com amigos que então
paravam na antiga Loja dos Compadres, afirmou que União Micaelense tinha mais
um jogador. Com que carinho eu via e notava, na minha infãncia e adolescência,
o amor ao Clube. A dedicação de dirigentes, jogadores e sócios, de que é
exemplo a carta de um fervoroso adepto da Ilha Terceira dirigida ao Exmº
Senhor Gustavo Moura
Tempos atribulados de dificuldades financeiras, sem a
cornucópia dos subsídios, vivia-se o clube e para o clube. Eram os dirigentes
que pagavam do seu bolso as cestas de laranjas que eram distribuídas nos
treinos, nos jogos, mesmo que, nas suas casas, a fruta não fosse abundante.
Quantos esforços eram desenvolvidos para que nada faltasse aso jogadores, mal
remunerados em alguns casos e graciosos noutros… Tanta dedicação, tanta
esperança e tanta alegria quando se saboreavam as vitórias arrancadas, muitas
vezes, a sangue, suor e lágrimas.
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